Bandagens.

É muito comum observarmos escaladores usando bandagens com esparadrapos nos dedos e punhos, seja com a finalidade de evitar a abrasão nas entaladas, seja para prevenir algum tipo de lesão por entorse. A técnica da esparadrapagem é utilizada em muitos esportes como forma de evitar entorse, porém o efeito deste tipo de imobilização é muito questionado por profissionais que estudam o assunto.

 

Há autores que dizem que, após meia hora de prática esportiva, a tensão da bandagem diminui em mais de 50%, diminuindo então sua eficiência, em contra partida, ainda hoje existem inúmeros atletas profissionais que não iniciam sua atividade esportiva sem bandagens e que não aceitam o uso de tornozeleiras ou molequeiras para substituição dos esparadrapos. O uso de esparadrapos para evitar a abrasão contra a rocha nos entalamentos de dedos e punho é bem conhecido pelos escaladores, mas o uso deste artifício para evitar lesões tendinosas e articulares deve ser discutido.

 

São três as principais funções da bandagem. A primeira delas é para prevenção de entorse. Entorse consiste na lesão causada pelo movimento acima do normal de articulações levando à diferentes alterações dos ligamentos. Dependendo da sua gravidade dividimos o entorse em grau leve, moderado e grave. No grau leve não há lesão macroscópica dos ligamentos; no grau moderado há lesão macroscópica, porém de pequena extensão e que não compromete a estabilidade articular; no grau grave há ruptura ligamentar completa levando a instabilidade articular.

 

Quando utilizadas para esta finalidade, as bandagens devem ser realizadas de forma que limitem a movimentação articular sendo realizadas junto das articulações. Outra função é a de evitar a lesão das polias. As polias são estruturas fibrosas encontradas nos dedos e que impedem que o tendão se afaste do dedo quando solicitada a flexão, sendo este o movimento biomecânico mais eficiente. Essas estruturas são lesadas quando a partir de uma flexão forçada dos dedos recebe-se uma força súbita e de grande intensidade em extensão. É como imaginarmos a seguinte situação: quando estamos em um movimento de muita pressão em micro-agarras e o pé escorrega, ouve-se então um “poff” que pode ser ouvido até mesmo pelo segurador, aparecerá então um grande aumento de volume do dedo e dor. Para o uso nesta finalidade o esparadrapo deve ser fixado em forma de anéis nas falanges dos dedos próximos das articulações.

 

Outras funções das bandagens são de auxiliar o retorno à escalada após uma lesão, imobilização no tratamento de lesões e fraturas dos dedos. Não existe ainda nenhum trabalho que prove que o uso de bandagens possa evitar lesões. De todos os artigos que encontramos na literatura, dois grandes nos mostram que o uso desta técnica para a prevenção de lesões das polias não pode ser comprovado. Um desses estudos foi realizado em um laboratório de biomecânica da Suíça onde foram estudados 16 dedos anulares e médios que foram submetidos a mensurações de pressão dos tendões em monodedos e bidedos. Outro trabalho que também não comprovou a eficiência das bandagens foi realizado no Texas, em um estudo com 72 dedos de cadáveres estudados que eram submetidos a um dinamômetro em posições de pegadas utilizadas na escalada e foram submetidos a cargas até a ruptura da polia, e observado se ocorria o mesmo com o uso das bandagens.

 

Acredito que diretamente a bandagem não impeça realmente a lesão nos dedos, porém, de forma indireta, ela pode auxiliar na prevenção destas lesões. Por isso, em casos especiais indico o uso de bandagens especialmente nos escaladores de boulder. Já na função de reabilitação das lesões dos dedos acho de extrema importância o uso de bandagens porque funcionam como protetores e tutores na readaptação do movimento, mas devem ser realizadas de maneira criteriosa. Acredito também que o maior risco do uso da bandagem é o garroteamento dos dedos, mas a sua ocorrência é rara. A bandagem pode ajudar a estabilizar articulações, mas não impede a ocorrência de lesões, portanto utilize esta técnica como coadjuvante na prevenção de lesões mas nunca como único método de prevenção. Escalar com consciência respeitando os seus limites é a arma fundamental para se manter escalando com menos lesões.

Leonardo Ramos
Médico e montanhista