Futuro incerto.

 

Neste início de século, o que mais ouvimos falar é a importância da prática regular de uma atividade física visando a prevenção de doenças, redução do estresse e promoção da saúde. Profissionais das áreas de educação física e nutrição, a muitos anos, vêm batendo nesta tecla. Infelizmente, apesar de as pessoas estarem recebendo a cada dia uma grande carga de informações neste sentido, a parcela da população que segue estes ensinamentos ainda é muito pequena.

 

Após a recomendação médica, muitos pacientes, assustados com os efeitos que o sedentarismo pode acarretar num futuro próximo, chegam a adotar um programa de treinamento, seja em academias ou com o auxílio de um personal trainner. Porém, poucos conseguem dar continuidade à atividade física. A maioria abandona os exercícios três ou seis meses de prática. A desculpa mais freqüente é a falta de tempo. Mas, se o dia tem 24 horas, será que não é possível dedicarmos ao menos uma hora a nossa saúde e bem-estar? Ao justificar nosso imobilismo, tentamos convencer a nós mesmos usando uma grande quantidade de desculpas, algumas muito engenhosas. Na realidade, o nosso subconsciente quer ouvir uma desculpa, qualquer desculpa, que sirva de justificativa para permanecermos onde estamos: estressados, sedentários, obesos, fumantes, etc. Não podemos mais dizer que desconhecemos os perigos do sedentarismo e de vários dos maus hábitos que adquirimos. Mudar de comportamento é que é difícil, especialmente porque nos falta ânimo e vontade. É muito complicado mudar padrões de comportamento. É aí que vamos buscar o auxílio externo em organizações ou profissionais que a cada dia se tornam mais comuns e populares: as academias e os personal trainners. Enquanto um atua no “atacado”, outro atua no “varejo”. A preferência por um ou outro vai depender da nossa disponibilidade de recursos e tempo, mas ultimamente, eles têm se associado e já podemos encontrar as vantagens do baixo custo das academias aliado ao tratamento individualizado desses profissionais. Entretanto o nosso relacionamento com essas entidades é problemático. Nós não sabemos se estamos ou não recebendo o que adquirimos. Nós nem mesmo sabemos corretamente o que estamos querendo e esse relacionamento é caracterizado por uma forte dose de incerteza. Os números não mentem.

 

Já observaram qual é a taxa de evasão nas academias? Ou a rotatividade dos alunos dos personal trainners, com raras exceções? Na busca pela manutenção de seu quadro de alunos, as academias investem em opções de marketing cada vez mais criativas e dispendiosas. Mas o verdadeiro âmago da questão permanece intocado: o nosso relacionamento é fraco porque se baseia em uma alta dose de incerteza e pode ser rompido facilmente. Mas como reduzir a incerteza, tornando mais estável o relacionamento aluno x academia x professor? O que adquirimos nas academias / personal é algo que não está na prateleira, nem pode ser avaliado imediatamente. Nós compramos um ponto futuro, uma expectativa de felicidade e bem-estar. Permanecemos na academia ou com nosso personal enquanto acreditamos no que ele nos diz, enquanto podemos ver acontecer o que queremos. Essa relação é muito frágil e pode se romper facilmente, bastando que, num desses dias em que as coisas não dão certo, nosso personal esteja particularmente antipático ou nos diga algo que tomemos como uma deselegância ou mesmo um insulto. Ou no dia em que o vestiário de nossa academia não estiver corretamente limpo, ou que haja gente em excesso utilizando os aparelhos, ou que a música esteja desagradável. Pronto! É o suficiente para abandonarmos tudo o que fizemos até então e cairmos outra vez em nossa vidinha anterior. Dessa vez carregando mais decepção. Facilmente encontraremos aspectos subjetivos nas razões que motivaram a decisão do aluno de interromper seu treinamento: “Tem chovido muito”, “Estou cheio de trabalho”, “Meu tempo é muito curto”, ”Não tenho tempo para treinar”, “Vou mudar no ano 3000”, ... Poderíamos escrever um livro com as justificativas que o nosso subconsciente produz, mas todas elas se relacionam com o nível de incerteza. Quando não sabemos para onde vamos, qualquer lugar é muito longe, diria um filósofo antigo.

 

O grande desafio no relacionamento das academias / personal com seus clientes é estabelecer uma relação estável e de mútua confiança e isso só pode ser desenvolvido quando controlamos adequadamente o nível de incerteza. Certamente nós não temos como eliminar a incerteza. Quem é que pode dizer o que vai ocorrer amanhã? Nem com bola de cristal é possível acertar 100%. Por outro lado, existem algumas práticas que, se adotadas pelos personal, pelas próprias academias e por seus clientes, podem contribuir para armazenar o problema. Se eu não posso saber antecipadamente o futuro, posso registrar o passado e o presente. No caso do treinamento físico, registrar o passado significa ter o hábito de guardar os resultados dos exercícios que fazemos, o seu grau de eficiência para nós, o registro dos momentos agradáveis e desagradáveis que passamos no treinamento e, também, aquelas pequenas coisas que sempre esquecemos, como, por exemplo, nossas medidas antropométricas, nosso “esforço percebido” e nossa freqüência cardíaca de repouso. Acompanhar o comportamento do coração através do registro da freqüência cardíaca durante e após o exercício, e mesmo em certos momentos como, por exemplo, ao acordarmos pela manhã, pode ser um hábito extremamente importante para mantermos nossa concentração em atingirmos nossos objetivos e afastarmos as tentações de desistir, que são sempre muito fortes. Devemos acostumar o nosso subconsciente a acompanhar, junto com o nosso consciente, a evolução positiva dos resultados que obtivermos, associando a tais constatações, imagens construtivas de beleza, harmonia e bem-estar.

 

Essas são algumas das práticas que podem ajudar todos nós a nos mantermos no rumo certo.

 

Prof. José C. Seixas

Muscle in Form

N° 22