Hidratação.

A reposição hídrica adequada mantém a hidratação e, portanto, promove a saúde, a segurança e otimiza a performance física em indivíduos treinados. A influência da reposição hídrica se faz presente na performance do exercício como também no risco de danos associados com a desidratação e a hipertermia. Porém, muitos indivíduos (sejam eles atletas ou não), na tentativa de perder peso rapidamente se arriscam com atividades físicas em temperaturas altas, quando não obstante usam casacos e plásticos para aumentar a perda de peso através do suor e pouca reposição do líquido perdido. Mas quais são os efeitos e os riscos associados à má hidratação e a própria desidratação em relação a atividade física?

 

A importância da hidratação está na regulação térmica, sistema cardiovascular e demais processos homeostásicos do organismo. Cerca de 60% da massa corporal é constituída de água e perdas substanciais podem levar o indivíduo a um decréscimo de performance. As atividades realizadas em temperaturas elevadas aliadas a uma hidratação inadequada podem causar incomodo no exercício e até levar a morte causada por um aumento na temperatura interna - a  hipertermia (WILMORE, 2001).

Alguns sintomas subjetivos da hipertermia são (WILMORE,2001; ACSM,1995): tontura, calafrios, cefaléia ou pressão pulsátil na região temporal, perda de coordenação, sensação de frio no estômago e nas costas, fraqueza muscular, desorientação e perda do equilíbrio, sudorese reduzida, perda de consciência, perda do controle hipotalâmico  e possibilidade de morte.

 

Além destes fatores uma má hidratação e conseqüente hipertermia pode acarretar vários aspectos negativos na fisiologia normal do indivíduo e na sua performance. Sendo os desempenho mais afetado nas atividades de longa duração, quando comparado aos esportes de força e de curta duração (LAMB, 1999; SAWKA & PANDOLF, 1990). Devido a perda de água, o sangue perde viscosidade, fica mais denso aumentando o esforço cardiovascular (MACK, 1988). Na tentativa de manter o débito cardíaco (volume sistólico x freqüência cardíaca) ocorre uma diminuição do volume sanguíneo e um aumento da freqüência cardíaca (LAMB et al, 1999).

 

A desidratação tem influencia direta na capacidade do corpo em dissipar o calor durante atividades em ambientes quentes (MACK, 1996). As perda progressiva de água (devido ao suor) pode freqüentemente exceder 30 g/min ou 1,8 kg/h (MACK, 1996), levando à hipovolêmia (perda de líquido) e a hiperosmolaridade (alteração na concentração de eletrólitos), o quais são os principais efeitos fisiológicos da desidratação. A modulação de baroreflexores na pele traz respostas fisiológicas sobre a transpiração, alterações do volume de sangue do sistema circulatório central e a inibição termal através do suor por aumentos da osmolaridade do plasma, porém quando esta perda é muito acentuada o organismo não consegue corrigir a temperatura interna sem uma reposição de líquido.

 

As maiores perdas através do suor são em condições ambientes quentes e úmidas com temperatura 32° C e umidade relativa do ar em 60% (BERGERON, 1996). Em media meninos e meninas entre 12 à 16 anos e mulheres jovens (18 à 22 anos) tem valores de transpiração (suor) entre 0.7 – 1.4 litros por hora, enquanto homens jovens (18 à 30 anos) 1.2 – 2.5 litros por hora, podendo chegar a 3.4 litros para homens e 2.5 litros para mulheres (BERGERON, 1996).

 

A perda de sódio também é um fator importante, lembrando que este é o principal eletrólito no líquido extracelular. Em jogadores de tênis a concentração de sódio no suor está um pouco acima de 20 mmol por litro e suas perdas pe potássio tem aproximadamente 5 mmol por litro, podendo chegar em meninos a perdas mais altas com valores de aproximadamente 40 mmol por litro (BERGERON, 1995). Mesmo com uma alta concentração de mineral a perda de sódio hora após hora dentro de uma partida pode chegar a 1 grama, com valores de 2.000 para quase 5.000mg de sódio por hora (BERGERON, 1995). Se adicionarmos a isso a rotina de jogos com disputas longas e partidas sucessivas não é nada surpreendente muitos atletas iniciarem disputas desidratados e com deficiência de sódio (hiponatremia).

 

A transpiração não se faz de forma uniforme em nosso corpo, e sua composição também é diferente para cada parte determinada do corpo (MACK, 1996). O corpo humano inteiro possui valores aproximadamente de 0.8 litros por hora (em um treinamento de 40% VO2 máx em um ciclo ergométrico com uma temperatura de 36° C com a umidade relativa em torno de 30%) com eliminação em média de 68mmol/litro de sódio e concentrações de potássio em valores de 4.7 mmol/litro. Entretanto estes valores podem variar consideravelmente em torno de 30 até 110 mmol/litro de sódio e 2.5 à 9.3 mmol/litro de potássio. Durante exercícios prolongados estes valores podem chegar à 5g de sódio, o que equivale a 12.5 gramas de sal de cozinha. Nos maiores valores de transpiração (1.4 litros por hora) com exercício intenso de 70 % do VO2 máx as concentrações de perda de sódio têm valores em média de 74mmol/litro entre valores de 40 até 104 mmol/litro (MACK, 1996).

 

Para uma boa hidratação a ACSM traz as seguintes recomendações gerais quanto à composição do líquido que deveria ser ingerido na preparação como também antes, durante e após os exercícios:

  1. Deve ter uma atenção a dieta (alimentação) e hidratação adequada durante, principalmente, as 24 horas que antecedem a atividade. Especialmente durante o período que inclua a refeição antes do evento.

  2. É recomendado um mínimo de 500 ml de líquido duas horas antes do exercício para promover a hidratação adequada e permitir o tempo da excreção do excesso ingerido.

  3. Os atletas deveriam beber líquidos já no início da atividade e em intervalos regulares em uma tentativa de consumir líquido na mesma proporção da perda de água através do suor (com perda de peso), ou se consumir o máximo de líquido tolerado.

  4. A bebida a ser ingerida teria um maior valor em temperatura abaixo da ambiente, entre 15 á 22ºC e com sabor para acentuar a palatabilidade. Estando em recipiente prontamente disponível com volumes adequados param serem ingeridos com facilidade e com interrupção mínima do exercício.

  5. A adição de quantias de carboidratos e/ou eletrolítica para uma solução de reposição hídrica é recomendada para atividades de longa duração, ou seja, maiores que 1 hora, desde que não afete a entrada de água ao organismo. Durante exercícios menores que 1 hora há controvérsia nos resultados entre a água e os repositores líquidos tanto no aspecto fisiológico como também na performance atlética (concluindo, nestes casos a água além de ser mais barata, possibilitaria o treino sem alteração da performance como também não trazendo riscos á saúde).

  6. Durante exercícios prolongados a adição de carboidrato pode ser eficaz para a manutenção do exercício e a demora no estado de fadiga. Soluções contendo 4% à 8% em 600 à 1200 ml são considerados o ideal. Os carboidratos podem varias entre glicose, sacarose e maltodrexina.

  7. A inclusão de sódio pode ser vantajosa em exercícios prolongados (maiores que 1 hora), promovendo a acentuação da palatabilidade e retenção hídrica, possivelmente promovendo o não aparecimento da hiponatremia (redução da concentração do sódio na corrente sanguínea) em indivíduos que bebem excessivas quantidades de líquido. Ainda não há um fundamento forte que a solução de sódio poderia acentuar a concentração de água no intestino (melhorando a retenção hídrica) quando o sódio está suficientemente disponível na própria alimentação.

 

Referências Bibliográficas:

 

- American College of Sports Medicine – Exercise and flid replacement: A positon stand. Medicine and Science in Sports and Exercise – 1996.
- American College of Sports Medicine - Heat and cold illnesses during distance running: ACSM position stand. Medicine and Science in Sports and Exercise - 1995.
- WILMORE, Jack H.; COSTILL, David l. - Fisiologia do Esporte e do Exercicio - Ed Manole, Sao Paulo, 2001.
- BERGERON, M. F.; L. E. Armstrong,; & C. M. Maresh – Fluid and electrolyte losses during tennis in the heat – Clin. Sports Med - 1995
- BERGERON, M. F.; C. M. Maresh; L. E. Armstrong; J. F. Signorile, et al. – Fluid-electrolyte balance associated with tennis match play in a hot environment. – Int. J. Sport Nutr. - 1995
- LAMB, David R.; SHEHATA, Adel Helmy – Benefícios e Limitações da Pré- hidratação _ Sports Science Exchange – 1999
- SAWKA, M. N., et ali. – Thermoregulatory and blood reponses during exercise at graded hypohydration levels. J. Appl. Physiol. 59: 1394-1401, 1985

Orlei Jr.

Prof. de ed. física e montanhista.