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Medo e delírio. |
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A adrenalina acelera os batimentos cardíacos para aumentar o
fornecimento de sangue, deixa o raciocínio mais rápido,
dilata as pupilas para melhorar a visão e faz os pulmões
trabalharem a mil. O organismo está preparado para lidar com
esses picos disparados pela adrenalina. O problema é viver sob
esse efeito incessantemente.
Para o psiquiatra e psicoterapeuta Marco Aurélio Peluso, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, o medo é um componente determinante. "A adrenalina aguda está ligada diretamente ao medo. Imagine topar com um urso faminto durante um passeio tranqüilo no bosque. A descarga de adrenalina aparece como contraponto ao medo repentino". O psiquiatra diz que esses sobressaltos têm níveis de tolerância e que estes definem as modalidades escolhidas pelos atletas. "Não se trata de uma regra, mas as crianças que adoram montanha-russa, por exemplo, podem desenvolver interesse por bungee jump na vida adulta. Diferente daquelas que têm uma sensação desagradável logo na primeira ida ao parque de diversões".
Mais associados à adrenalina, os esportes radicais apresentam um mix de medo, perigo e prazer bastante evidente. "São os temperos desse tipo de atividade esportiva. Sem eles tais esportes não teriam razão de existir, uma vez que estão aí para testar justamente esta tríade do comportamento humano", diz o psicólogo do clube rubro-negro carioca, salientando que até mesmo a definição é bastante subjetiva. "Radical para uns, prazeroso para outros."
Sabe quando dizem que o sujeito está estressado ? Não é exatemente uma terminologia clínica, mas ilustra bem o quadro", exemplifica Peluso. "O esportista que é só adrenalina trava", lembra o professor de Educação Física José Rubens D'Elia, treinador especializado em psico-física e teórico da Terapia Esportiva. De pensamento afinado em diversas questões, os profissionais divergem um pouco quando a controvertida imagem do viciado em adrenalina vem à tona. A adrenalina pode viciar? "Ela pode ser, sim, considerada vício se o praticante de atividade esportiva não entendê-la simplesmente como um sinal de prontidão para a execução dos movimentos que podem ser altamente prejudicados por uma ação excessiva", diz Ribeiro.
"Acho difícil falar em vício.
Os estudos nesse sentido não são claros e não há
notícia de ninguém que tenha contraído dívidas,
perdido o emprego ou colocado-se em situação vexatória
para continuar a praticar determinado esporte", diz Peluso. O psiquiatra
recorre a outro termo que, segundo ele, é mais apropriado. "Eu
chamaria talvez de compulsão. Exatamente como no caso dos garotos
que ficam horas na frente do computador." Terminologias à parte, eles concordam que o esporte é o grande aliado das pessoas, atletas ou não. "Se a saúde estiver em ordem, qualquer modalidade pode ser feita", diz Peluso. Já o psicólogo Ribeiro acrescenta: "O esporte é o mais natural dos meios de tratamento para alguns transtornos psicológicos, uma vez que libera quantidades necessárias de estimulantes naturais de nosso organismo, como a endorfina", diz ele, referindo-se à substância produzida pelo córtex cerebral que causa aos esportistas a sensação de bem-estar, de relaxamento. Uma seqüência lógica da "estressada" descarga de adrenalina. "O ideal é que haja sempre um equilíbrio entre elas", finaliza D'Elia.
A voz da experiência:
O pára-quedista Sabiá pratica várias modalidades
dentro do seu esporte, inclusive a mais radical de todas, o base jump
(salto de uma base fixa, como montanha, prédio ou antena), e
tem uma relação bem íntima com a adrenalina. "Ela
se manifesta desde o planejamento do salto e muitas vezes só
passa dias depois da realização. Recentemente, pulei de
um ponto muito alto no Beto Carrero World, em Santa Catarina, e a emoção
foi tão forte que eu mal consegui dormir nas noites seguintes.
É o prazer máximo ... tem ocasiões em que eu salto
dez vezes na mesma noite". Quanto ao medo, Sabiá concorda com a maioria dos entrevistados: "Ele é um aliado, porque aguça os seus sentidos - só não pode chegar no pânico, porque o medo você controla, e o pânico é sinônimo de descontrole. Vale ressaltar também que quando falo do medo, me refiro a um medo bom, que te empurra pra frente. Não tem nada a ver com aquele provocado por um assalto, por exemplo". Parceiro de Sabiá, o praticante de tow in (surfe em ondas gigantes) e também pára-quedista Formiga acrescenta que tal feeling é bom porque "ativa a parte instintiva do ser humano, que geralmente é comandado pelo racional. Nessa hora, o que vale é o subconsciente", e completa: "Muitas vezes, dá mais medo antes. Durante a ação, rola a administração do medo, pra fazê-lo trabalhar a seu favor. Tranqüilidade, nesses casos, é sinônimo de displiscência".
Quando o assunto converge para a questão de a adrenalina ser ou não um vício dessa estirpe de esportistas, a maioria fica indignada com tal hipótese. O cinegrafista e dono de produtora Renato Castanho é categórico ao afirmar que "isso não tem nada a ver. Pratico surfe, mountain bike, motocross e o meu prazer é estar em contato com a natureza". O alpinista Rodrigo Raineri, um dos primeiros a escalar o Monte Aconcágua pela face Sul, manifesta uma opinião diferente. "O contato com a natureza, somado à adrenalina e endorfina liberadas no corpo, gera uma sensação de bem-estar absurda que, uma vez provada, faz falta. Uma das coisas que me atrai na escalada é o fato de prolongar esse sentimento". E mesmo discordando do poder viciante da "droga" Formiga afirma que, após a "missão", o atleta se sente "poderoso, cheio de vida".
Tal opinião é compartilhada pela apresentadora de TV Fernanda Lima, que já praticou pára-quedismo, bungee jump, para-glider e rapel perante as câmeras, durante as excursões que faz para o Mochilão MTV. Apesar disso, Fernanda, que já saltou de uma ponte de 215m na África, não executa tais façanhas por motivação própria: "Não gosto de alturas nem de passar medo, mas sou profissional. Pra mim é uma barreira muito difícil. Sempre penso que posso morrer". |
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Rodrigo Casula e Rodrigo Carneiro |
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